04/12/2011

Pulp Fiction (1994)

 
Se em Cães de Aluguel (1992), Quentin Tarantino despontou como um criativo e promissor cineasta que viria a dar uma nova dimensão ao cinema independente norte-americano, em Pulp Fiction (1994), o cara resolve quebrar tudo e definir de vez a que se prestava com o domínio de uma câmera.

Diferente de seu antecessor (Cães de Aluguel), Pulp Fiction não se prende a uma situação ou a uma trama pontual (não quero aqui dizer que uma história bem específica não dá um bom filme; longe, muito longe disso), mas sim a um universo. Tal universo teria seus limites desenhados pelo próprio Taranta e a coisa funcionaria mais ou menos como um aprisionamento dele mesmo. Aliás, funcionou. Dali não se escapa. Os moldes dos trabalhos do queixudo do Tennessee estavam sendo delimitados e os ingredientes usados para realizar a façanha que foi este filme se tornariam onipresentes em toda a sua obra e em filmes alheios, influenciando uma geração de cineastas e cinéfilos.

Há quem diga que Kill Bill (2003 e 2004) refinou as ideias já implementadas desde Pulp Fiction. É bem verdade, mas a textura áspera e bruta que se depreende de Pulp Fiction lhe concede o posto de obra máxima de filmes “bagunçados, mas organizados”, assemelhando-se a uma fanzine. Não só por isso. Mas por todas as condições que cercaram a realização desta obra: produção independente, recursos quase mendigados, direção e roteiro embaralhados, visual sofisticado e uma “mistureba” de elementos pop tão rica e pungente que põe o espectador à prova, permitindo a ele uma auto avaliação no que tange os seus conhecimentos sobre cultura em geral. Para completar, o título e o cartaz (que evidentemente parece uma capa de revista barata) do filme comprovam quais as reais intenções de Tarantino.

É interessante notar como o filme nunca esquece as suas fontes de inspiração, incorporando ao próprio roteiro picotado a cara das revistas pulp e se utilizando de uma direção sedenta, que transparece a ânsia por querer mostrar cenas e transmitir reações fortes cada vez mais, num único filme. Por falar nisso, a marcante trilha sonora cai bem demais e esse gosto musical invejável habita cada filme do Quentin. Dessa vez, há muito surf rock, soul e pop underground, que confere uma sensação de marginalização que se deseja. A (des)construção cronológica está lá para corroborar com o que foi dito; e que coisa linda ela é! Quem não viu o filme, pode até pensar que isso não é grande coisa e que é um recurso já muito utilizado, mas em Pulp Fiction a deslinearização narrativa atinge um nível genial, juntando as peças antes desconexas e vomitadas em partes divertidamente nomeadas para dar-lhes um sentido novo, uma perspectiva diferente e entrelaçá-las; e o espectador chega ao Nirvana.

 As promessas de como as histórias do filme se cruzarão é um forte impulsionador para se estabelecer empatia com o filme. De início, há um casal (Tim Roth e Amanda Plummer, desvairada) assaltando uma lanchonete. Depois a cena muda para Vincent Vega (John Travolta, “ressuscitado”) e Jules Winnfield (Samuel L. Jackson) indo cumprir ordens de seu chefão mafioso, Marsellus Wallace (Ving Rhames) e após isso somos apresentados ao personagem de Bruce Willis, Butch. Uma Thurman, por sua vez, constitui um adereço que torna o filme mais belo e ostensivo e sua participação é ótima. Ainda houve espaço para Eric Stoltz, Harvey Keitel, Christopher Walken e outros bons atores. Um elenco de peso, certo? Certo e, acima de tudo, muito bem aproveitado e dirigido. O desenvolvimento dos personagens não poderia ser outro: inquieto e através de longos diálogos e monólogos sobre assuntos inusitados, mas que muito dizem sobre eles mesmos do modo como são discutidos. Há um evidente desapego e uma aversão aos dramas, personagens e acontecimentos convencionais (fica impossível não esboçar nem um sorriso com a história do relógio da família de Butch), o que marca (aqui sim!) a superficialidade orgulhosa e primorosa e o frenesi por mudar de cena, por mostrar mais sangue, por ir e voltar no tempo e bagunçar as cartas sobre a mesa, confundindo até o espectador mais prevenido, entretendo de forma inteligente e provocando uma overdose de deliciosos sabores, que quando são agrupados, tornam-se ainda mais palatáveis. Por pelo menos 2 horas, esquece-se o mundo lá fora e habita-se satisfeito no atraente mundo do crime.

Esta colcha de retalhos, aclamada pela crítica e indicada a muitos prêmios – entre eles sete Óscares – é o filme eclético definitivo e uma paródia múltipla séria. É desnecessário dizer que é um filme obrigatório para qualquer cinéfilo, devido a sua importância inegável no cenário cinematográfico dos anos 1990. Goste ou não dos filmes do Tarantino (ou da pessoa orgulhosa que ele é), o cinema moderno deve muito a eles e nós estaremos subjugados aos mesmos enquanto gostarmos de filmes bons. Especialmente a este.

Um comentário:

Martha Angelo disse...

Eu nunca gostei de Tarantino, devo dizer, começava a ver os filmes,que logo me desinteresavam e, várias vezes, parava no meio.
Portanto, a argumentação inteligente deste texto é inegável
ao me tentar a assistir Pulp Fiction novamente.